quinta-feira, 9 de março de 2023

O Abacate


Sabe aqueles momentos de abstinência de nossas vontades para a alegria do outro. Pois então...


Existem momentos inesquecíveis em nossas vidas. Tive um desses momentos. O momento do abacate. Aqueles raspados na casca com açúcar cristal e olhos entreabertos. Após me deliciar com algumas colheres do dito, senti a saciedade. Sem deixar ela perceber, meditei na ideia de levá-lo ao lixo. Com 2 ou 3 piscadelas, olhei para ela, estava observando o meu abacate e tive uma sensação de certeza; Só tinha 1 abacate e ela estava de olho no meu. Sem titubear, levantei o abacate com a colher e fiz aquele sinal sem voz; Quer? Ela disse: Não!

Refiz a pergunta exclamando: Não quero +, vou joga-lo no lixo se não quiseres. Duvidando da minha verdade ela continuou negando. Tentei + 1 ou 2 vezes e ...com aquele sentimento de desperdício, soltei-o  no lixo. No ímpetos da loucura, lembro dela correndo aos gritos na busca e salvação dele. Com alegria, sabores e boas memórias, o abacate cumpriu sua missão. 


E ficou a lição!


Quando gostamos muito de uma outra pessoa, muitas vezes abdicamos de nossas próprias vontades para agradá-las, na maioria das vezes são inócuas tais atitudes.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

100 anos de solidão

Um navegante brasileiro que acompanhou Maria na sua  primeira viagem à Grécia, ao passar pelas águas do Mediterrâneo escreveu uma crônica rigorosa, que, no entanto, parece uma aventura da imaginação. Contou que havia visto deusas e deuses mitológicos; e águas profundas com seres subterrâneos, com bailes nas terras do Olimpo, e outros em jantares deliciosos. Contou que puseram um espelho na frente do primeiro índio que entraram lá, era ele no caso, codinome Bugre; e que aquele gigante ensandecido perdeu o uso da razão pelo pavor de sua própria imagem.

Este conto, no qual já se vislumbravam os germes de nossos romances de hoje, está longe de ser o testemunho mais assombroso da nossa realidade daqueles tempos. Os cronistas das índias nos legaram outros, incontáveis. O Brazil, nosso país ilusório tão cobiçado, apareceu em numerosos mapas da fome e tortura durante longos anos, mudando de lugar e de forma de acordo com a fantasia dos biógrafos. Quem conta um conto, aumenta 1 ponto. Na procura da fonte da Eterna Juventude, o mítico .....Pessoa... explorou…





 (...) Adaptação do livro 100 anos de solidão, de García Marques. 

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Intermitente

 

O limiar intermitente entre o ar que entra, oxigena o corpo e o sopro de partir. Um intermitente interminável. O simples pulsar que para. O parar por um segundo. O estar e não estar. O ficar e ir. O gritar e falar baixinho. A criatura que parte sem dizer nada. O nada que se transforma, transmuta, transcende, pula baixinho e canta. Um passarinho que bebe água, aninha-se, voa e revoa. Algumas palavras soltas que organizam-se num papel em branco, o relato do facto. O facto que já aconteceu e vai acontecer intermitentemente, até o fim do pensamento. A criatura que sobrevive. A criação que  transforma-se e se’cria.

sexta-feira, 26 de março de 2021

Ensaio sobre a Vida

 O que nos resta dessa Vida? O que vamos fazer com este monte de partículas que nos abarca? Quanto tempo ainda temos aqui nesta realidade? 


"O motivo da mudança vibracional não é outro senão fazer a humanidade perceber que a Vida é muito mais que dor e sofrimento"


Muito mais que sofrimento e dor. 


A Vida precisa ser mais. 


Bem +

 

Tem que ser! 


Resumir em sofrimento e dor para mim dói de mais. Não quero acreditar nisso e bem menos na morte como um fim. 


Vida eterna enquanto existir memória, razão e emoção.


Eternidade!


Com emoção a vida parece mais leve. 


Não achas? 


Tudo indica que estamos numa passagem pela terceira dimensão. E se olhassemos a Vida como um mochinho com três pés (3D)? 4 pés? Bancos com 5 pés ou pilares. Li em algum lugar na rede sobre a sexta dimensão. Falam em oitava, nona, décima, décima primeira, décima segunda, décima terceira, décima sétima e quinquagésima  dimensão (PSol). 



Piração é na enésima dimensão com os infinitos possíveis. 


Viver no infinito!


Dimensionar a palavra Vida 3D como um tripé, com três pilares ou palavras.


Pés na realidade agora.


Se pensarmos a Vida como um banco de três pés e colocarmos nomes nos pés, quais nomes teriam os pés do banco chamado Vida?


Espero que tu não escrevas dois terços das palavras que definem a Vida usando aquelas duas citadas anteriormente 

(dor e sofrimento). 


Espero que não!


Eu pensando aqui com meus botões resumo momentaneamente assim:


Vida= Eternidade + amor + água. 


E pronto!


Eis ai uma baita definição de Vida. 


Não sei muito sobre a Vida, entretanto, tudo indica que, se ainda estou vivo, que seja para aprender +. 


E que assim seja!

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Como assim?



Entre morros e vento norte que norteiam e criam histórias que recriam a nossa realidade, surgem em nossa época, construções de um mundo oco, vazio e tão superficial que pode ser desconstruído na primeira ventania. Movido por textos falaciosos, retóricas românticas, aventureiras, Clarices e tomates, velhos e novos, outrossim, atuais; Sim! Eis que surge a revolta. No absurdo de dizer nada e tudo ao mesmo tempo, comunicar o atual com frases bem estruturadas, palavras pomposas, elegantes e bonitinhas – talvez – trago a tona, uma séria irritabilidade com o fato de que a realidade seja um construto social. Ao pensar na Nova Esquerda que criou uma “subcultura acadêmica auto-perpetuante que tipicamente ignora críticas racionais de fora”, me remete ao caso Sokal.
No artigo publicado na edição de Verão/Outono de 1996 (anexo 2) no jornal pós-moderno Social Text, intitulado “Transgredindo as Fronteiras: Rumo a uma Hermenêutica Transformativa da Gravidade Quântica”, um artigo com 109 notas de rodapé q combinam termos acadêmicos com retórica sociopolítica (doze páginas com referências bibliográficas), propõe que a gravidade quântica tem implicações políticas progressivas, e que o campo morfogenético é uma teoria inovadora da gravidade quântica. O notável professor de Física da Universidade de Nova Iorque, Alan Sokal, declarou que “está tornando crescentemente aparente que a realidade física é fundamentalmente “uma construção social e lingüística”. Afirmou também que, porque a pesquisa científica é “inerentemente carregada de teorias e autorreferencial”, ela “não pode afirmar um status epistemológico privilegiado com narrativas contra-hegemônicas emanadas de comunidades dissidentes ou marginalizadas” e que, portanto, uma “ciência libertadora” fornece poderoso suporte intelectual para o projeto político progressivo.
O artigo foi uma farsa criada, de acordo com Sokal, para ver se realmente “um jornal bastante renomado de estudos culturais publicaria um artigo sem sentido algum apenas se a sua introdução soasse como boa, testando, também, os preconceitos ideológicos dos editores”.  Sokal afirmou que se os editores fossem intelectualmente competentes, teriam reconhecido logo no primeiro parágrafo que a tese era, na verdade, uma paródia. O físico disse q ele foi “ convencido de que havia um declínio aparente nos graus de rigor científico em certos setores de ciências humanas acadêmicas nos Estados Unidos”. O hoax ou a farsa, foi a sua forma de chamar atenção para isso. Além de tudo isso, veja algumas palavras ditas pelo mesmo:
“ Através deste artigo, emprego conceitos matemáticos e científicos de maneiras que poucos cientistas e matemáticos poderiam levar a sério. Por exemplo, eu sugiro que o “campo morfogenético” –uma ideia bizarra da Nova Era que surgiu com Rupert Sheldrake – constitiu uma vanguarda para a teoria da gravidade quântica. Essa conexão é invenção pura, mesmo que Sheldrake não faça tais alegações. Eu afirmo que as especulações psicanalíticas de Lacan foram confirmadas por um trabalho recente no campo da teoria quântica. Até mesmo leitores leigos reconheceriam  que o que eu falei não faz sentido algum. Em suma, eu escrevi intencionalmente esse artigo de forma que qualquer físico ou matemático competente iria perceber que era besteira. Evidentemente, os editores do Social Text se sentiram confortáveis pela publicação de um artigo de física quântica sem consultar ninguém que conhecesse o assunto.”
Acima de tudo, no entanto, a farsa de Sokal demonstra como estamos dispostos a sermos enganados por assuntos que acreditamos firmemente. Temos mais tendências de sermos críticos em relação a artigos que atacam a nossa posição, mas sucumbimos aqueles que a apóiam. Há um termo específico para isso, viés de confirmação, e atinge tanto os cientistas sociais e de humanidades quanto os de exatas e da natureza.


(Anexo 1) http://claudemirpereira.com.br/2015/03/uma-rara-e-emocionante-experiencia-em-walachai-por-jorge-cunha/#ixzz3iyuJn9GY

(Anexo 2) http://www.physics.nyu.edu/sokal/transgress_v2_noafterword.pdf


            

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Crônica de Fernando Sabino.

A arte brasileira da conversa não é de fácil aprendizado. Como toda arte, exige antes de mais nada uma verdadeira vocação. E essa vocação se aprimora ao longo do caminho que vai da inocência à experiência. Como em toda arte. Para princípio de conversa, distinga-se: quando falo em conversa, não estou me referindo à lábia, à astúcia, à solércia do brasileiro no passar a bicaria e vender o seu peixe. Falo precisamente no bate-papo, erigido numa das mais requintadas instituições nacionais. Mas por que arte brasileira? Os outros povos acaso não batem papo?
A própria expressão, brasileiríssima, corresponde em inglês exatamente ao verbo “to chat”, na acepção que lhe dá o dicionário: “to converse in an easy or gossipy manner; talk familiarly”. Até os ingleses, meu Deus, os ingleses têm também o seu papo: um deles, na mesa do bar, olha para fora e diz que vai chover; meia hora depois outro diz que não vai chover; meia hora depois o terceiro se retira dizendo que não gosta de discussão. A falta de graça desta velha anedota não está em ser velha, mas na finalidade útil que fez michar o papo. Este não deve ter finalidade alguma, senão a de matar o tempo da melhor maneira possível. É coisa de latino em geral e de brasileiro em particular: fazer da conversa não um meio, mas um fim em si mesmo. Se não me engano, essa é a distância que separa a ciência da arte.
No papo bem batido, a discussão não passa de uma motivação, sem intuito de convencer ninguém, nem de provar que se tem razão. Os que nela se envolvem devem estar sempre prontos a reconhecer, no íntimo, que poderiam muito bem passar a defender o ponto de vista oposto, desde que os que o defendem fizessem o mesmo. Os temas devem ser de uma apaixonante gratuidade, a ponto de permitir que, no desenrolar da conversa, de súbito ninguém mais saiba o que se está discutindo. Mesmo nas eternas discussões sobre mulher, religião ou futebol, para que se constituam em bate-papo, longas digressões hão de ser admitidas, desde que pertinentes. Esta última observação, aliás, é pertinente ela própria, já que falei em futebol, quando se trata de papo acalorado como o que batiam aqueles dois amigos, parados numa esquina, violando o silêncio da rua adormecida:
— Se o último jogo do Campeonato fosse do Botafogo contra o Fluminense…
— Ora, Alfredo, pra cima de mim! Ia ser de goleada.
— Você não me deixou terminar, Dagoberto. Eu queria dizer que o Botafogo…
— Que Botafogo que nada! Com o Vasco diziam a mesma coisa…
— Dagoberto, você não me deixa falar!
— … e no entanto ele acabou entrando bem. Essa não, Alfredo.
— Não estou falando no Vasco. Eu disse que o Botafogo…
— E no ano passado, que foi que o Botafogo fez? Me diga só o que ele fez.
— Você não me deixa falar, Dagoberto.
— Desde o princípio todo mundo sabia que o Fluminense…
— Você não me deixa falar!
A essa altura abriu-se uma janela no edifício da esquina e surgiu um indivíduo estremunhado:
— Ô Dagoberto! Deixa o Alfredo falar!
A boa conversa implica sempre em deixar o Alfredo falar. Além disso a discussão, ainda que gratuita, pode exaurir o papo diante de uma impossível opção, como a de saber qual é o melhor, Tolstoi ou Dostoievski, Corcel ou Opala, Caetano ou Chico. A menos que ocorra ao discutidor o recurso daquele outro, hábil em conduzir o papo, que teve de se calar quando, no melhor de sua argumentação sobre energia atômica, soube que estava discutindo com um professor de física nuclear:
— Você é presidencialista ou parlamentarista?
— Presidencialista.
— Pois eu sou parlamentarista.
E recomeçaram a discutir.
Mais ardente praticante do que estes, só mesmo o que um dia se intrometeu na nossa roda, interrompendo animadíssima conversa:
— Posso dar minha opinião?
Todos se calaram para ouvi-lo. E ele, muito sério:
— Qual é o assunto?
Mas percebo que me perdi em discussões, polêmicas, argumentos e desaguisados, afastando-me do verdadeiro espírito que deve presidir o culto dessa arte. De preferência, que ela seja praticada apenas a dois — como diz o mineiro, conversa de mais de dois é comício. E entre estes dois, bom será que reine amável concordância, para que, alternadamente ouvindo e falando, possam ambos conjugar o delicioso verbo discretear.

quinta-feira, 31 de março de 2011

DIVAGAÇÕES

Vindas do ócio criativo, vulgo: OCA DO ÍNDIO





Com...

http://mallarosa.blogspot.com/2011/03/faz-tempo-que-nao-venho-aqui.html













Nessas idas e vindas de Maria Tereza, vulgo TTzinha, que forma e reforma suas voltas, como aférese de ainda ou indas, retorna a sua escrita latejante, com um sopro de vento anunciando mais uma estação. A pomba enamorada volta ao ninho, pinta paredes na concretude de uma espreita atalaiada de um redundante vigiar de pensamentos relativos. Nesse relativismo tangenciado em absurdos esquisofrênicos dessa contemporaneidade de idéias, TT simplesmente abanca-se numa admiração de um largo lago profundo, escuro iluminado por talvez um não-sei-o-quê. Como diz aquele amarelo bem mentiroso de Suassuna, “só sei que foi assim”. O lago era escuro iluminado.

E o contemplar continua... Com sonhos possíveis de ver estrelas durante o dia, com a epifania de criar águas não molhadas emergidas na imersão de seu próprio corpo, de aclamar aos amores suntuosos e faustuosos de algo explendoroso que é o simples contemplar.

O contemplar, meticuloso, transcendental e metamórfico de um simples fechar e abrir das pálpebras da imaginação que, cria, recria e transfere para mim, o inóbvio de um novo dia. E a despedida é inevitável... Com direito a um ponto final (.)



SANTA MARIA no último dia de março, fechando o verão de 2011.

UMA MÚSICA QUE SEJA...


...como os mais belos harmônicos da natureza. Uma música que seja como o som do vento na cordoalha dos navios, aumentando gradativamente de tom até atingir aquele em que se cria uma reta ascendente para o infinito. Uma música que seja como o som do vento numa enorme harpa plantada no deserto. Uma música que seja como a nota lancinante deixada no ar por um pássaro que morre. Uma música que seja como o som dos altos ramos das grandes árvores vergadas pelos temporais. Uma música que seja como o ponto de reunião de muitas vozes em busca de uma harmonia nova. Uma música que como o vôo de uma gaivota numa aurora de novos sons...
 
 
 
 VINÍCIUS DE MORAES 

terça-feira, 29 de março de 2011

UM CANTO

No limiar intermitente entre o ar que entra e oxigena o corpo e o sopro de partir. Um intermitente interminável. O simples pulsar que para. O parar por um segundo. O estar e não estar. O ficar e ir. O gritar e falar baixinho. A criatura que parte sem dizer nada. O nada que se transforma, transmuta, revigora-se, transplanta, transcende, pula baixinho e canta.

Um passarinho que bebe água, aninha-se, voa e revoa. Umas palavras soltas que se organizam e imprimem num papel em branco o relato do fato. O fato que já aconteceu, acontece e vai acontecer ininterruptamente até o fim do pensamento. A criatura que sobrevive. A criação que se transforma e se cria. O criador que não domina mais o monstro que se fez. O passarinho que parou de voar.

Numa continuidade feroz, o pássaro vira monstro, criatura, objeto, fato, feiura e beleza. A monstruosidade de não estar, faz e fez dele um ser instável, atemporal. Um ser construído e visto por todos com cores, barulho e maciez. Um objeto palpável e complexo por simplesmente não estar mais ali, visto a olho nu. A nudez desses olhos, se veste com panos e peles, feito grosseiramente por mãos humanas de espécie semelhante. O semelhar da pele, iguala-se a um só. Um único Ser. Um só instante. O último instante da vida, menor que o minuto e o segundo. Um pouco antes da chegada da morte. Um pouco depois da última respiração. Um cantinho de instante preso num momento que não sai da cabeça, da alma, do espirito, da réstia de luz que fez e faz o milagre acontecer. E o passarinho continua a aninhar-se, voar e revoar.

A partitura de uma nota acompanha uma música sem ritmo. Uma nota menor que o instante do último conjunto de átomos que compõe o resto de ar saído dos pulmões. O aninhar, voar, revoar e todos os outros fatos vem numa velocidade nunca vista. Vão todos a uma única direção, o canto. O cantinho antes do fim e depois da chegada. Unem-se sem ritmo e numa nota só. A nota de maior valor. A nota que não tem preço, pois se tivesse, garanto que todos os seres se juntariam para arrecadar tal importância e comprar e se apropiar e dominar e controlar e modificar a ponto de não pontuar-se num final. Mas a nota não tem preço. A nota compõe a música. A música não tem ritmo e leva tudo a um único canto. O cantinho antes do fim e depois da chegada. Um canto onde toda a passarinhada canta, aninha-se, voa e revoa. Um canto onde o relógio da voltas e voltas trazendo tudo e todos a tona. O canto da partida.

O Clarear predomina e se estabelece. Preenche todo o espaço. O espaço vira tudo. O tudo vira caos e se organiza momento a momento, segundo a segundo, terceiro a terceiro, o quarto...O quarto que repousa, passa, amanhece e adormece. O quinto, o sexto e o sétimo se contemplam dando origem ao oitavo e o nono. A nona grita chamando seu velho para ir dormir. A nona sonha com o neto. O neto cria a nona e tudo se mistura formando um só. A origem. A raiz que já não se importa se é quadrada, quinta, sexta ou enésima, pois é a raiz de um e tudo se torna um só, num só instante, num único lugar, num tempo e espaço localizado no canto. Bem no cantinho. Antes do fim e depois da chegada. No canto está eu, cantando um canto de uma nota só. Um cantarolar ininterrupto, com um La-ra-la-lá duma artista chamada Lara, que nem lá, nem aqui, nunca, nem um outro, só eu ouviu cantar. Bem no cantinho do último canto de uma nota só, ouve-se um Lá. Um Lá gritante, pulsante, revigorante e visceral. Lá naquele canto, no final da nota, no termino do ínfimo suspiro, onde tudo termina.

No término da palavra gritada no canto e em si mesma, sem qualquer similaridade com o objeto que representa, surge um símbolo. De caráter icônico ou analógico o símbolo se resolve num ícone. Ícone subliminarmente escondido numa derivada segunda da função Y= Z²-2W²-Vα Vα. A combinação particular do primeiro membro é comparada à do segundo, traduzindo o resultado, por semelhança, a relação entre o objeto gritado. Nesse código ainda não piado por nenhuma Bia, surge um subespaço sígnico interdependente atraído por algum sorvedouro icônico. Num sei-lá-o-quê de algum pensamento relativista, calcula-se esse ícone em intra-semias (subcódigos compondo um código maior).

Num repertório de ossatura intersemiótica, surge um latejo combinatório que favorece a criação, a arte. A arte de estar e não estar, de fazer e não fazer, de ir e não ir, de gritar e falar baixinho, de ser e não ser, de parar tudo e sair correndo ou de simplesmente viver.

Mas qual é a latitude que ressoa o sinificado de tudo isso?

O pulsar de minha víveda alma que canta num último suspiro um canto de uma nota só re-atua em palavras-ícones significados que não vou cantar e nem contar, é segredo.

 
 
JC
 
 
SANTA MARIA- 29-03-11

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

L´Hortensia

La sonnette tinta doucement. Par le judas minuscule, Marc
crut apercevoir, au bout du couloir sombre, une silhouette
claire plonger dans l’escalier. Il ouvrit la porte, étonné. Sur
l’essuie-pieds, dans un pot dérisoire, au bout d’une tige droite
et raide qui paraissait vraiment très mince pour la soutenir se
tenait une énorme fleur d’hydrangea macrophylla.
Marc avait en horreur ce genre de plante dite
ornementale, appelée plus ordinairement hortensia. En exil de
leur destination première qui est d’égayer de tendres couleurs
les vieux murs, séparés de leurs soeurs pour être ainsi
transplantées dans un pot de brique, elles deviennent factices
et sans attraits.
Il ne se demanda pas longtemps qui venait de poser là,
avant de s’enfuir, la plante bouffonne. Certainement c’était
Hortense, cette folle d’Hortense, signant ainsi sa visite. Depuis
des lustres elle s’entêtait à lui manifester les marques d’un
attachement qui le touchait, certes, mais sans l’atteindre au
fond du coeur (ou de ce qu’on appelle ainsi). Qui se dit libre
d’aimer ou de ne pas aimer ne sait rien de l’amour. Marc
n’était pas libre de son choix.
Il aimait jusqu’au délire depuis plus d’un mois déjà, la
jeune, la gracile, la souple Yamira. Cet amour partagé
plongeait Hortense dans le désespoir sans mettre fim aux
marques cocasses d’une passion, absurde et funeste s’il en fût,
puisque nul ne pouvait y répondre. Marc avait cependant tout
tenté pour en décourager les effets... Mais allez donc
convaincre celle qui aime qu’elle n’est pas aimée!
L’homme referma la porte avec, serrée entre ses bras, la
plante à l’inflorescence stupide et sans odeur. N’aurait-il pas
mieux fait de la jeter par la fenêtre ? Ainsi la pauvre fille qui
guettait, dissimulée dans une encoignure sur le trottoir en
face, à tout jamais se serait persuadée de son indifférence.
Encore une fois un soupçon de pitié l’avait retenu. A moins,
mais il ne voulait se l’avouer, que la fleur, à cet instant
s’éclairant soudain, lui eût paru revêtir une teinte singulière et
pas du tout dénuée d’attirance, tandis qu’elle se balançait au
sommet de la tige qu’ornaient seules deux ou trois larges
feuilles d’un vert artificiel.
De rose et mauve tout à l’heure dans la pénombre du
vestibule, son ombelle aux cent pétales se teintait à présent
de bleu pâle, de ce même bleu qu’avaient les grands yeux
d’Hortense quand elle les levait vers Marc, chargés de tout un
passé de promesses retenues.
« Tu ne crois pas qu’elle a voulu se moquer de toi?» lui
dit Yamira en éclatant de rire devant la fleur aussi saugrenue
que muette. « Comment peut-on avoir si peu de goût!
renchérit-elle. Elle l’a certainement fait exprès.,..
Et, s’emparant du pot que Marc avait posé sur la table de
la salle à manger, elle alla le porter dans la chambre. « Ce
soir, le cadeau de cette mijaurée sera notre témoin... »
pensait-elle avec déjà un petit rire fou au fond d’elle.
Lorsqu’un peu plus tard les deux amants se retrouvèrent
dans la ferveur nue de leurs désirs connivents, ce n’ est pas
l’hortensia posé sur le guéridon, devant leur couche, que Marc
contemplait de ses regards impatients, mais bien le corps
admirable, dans sa tendre jeunesse épanouie, qui chaque soir
causait son émerveillement et entretenait sa vie d’une
espérance illimitée. Pourtant, dans le silence avide des
délicieuses caresses précédant l’accomplissement, il sembla à
Marc qu’une atmosphère inaccoutumée régnait dans la pièce.
Entre deux étreintes où son ardeur lui faisait tout oublier
s’infiltrait peu à peu l’impression gênante d’une présence
invisible, une présence qui les observait. Puis cette impression
devenait plus tenace en se précisant. L’homme avait
maintenant le sentiment que plusieurs regards étaient braqués
dans son dos. En s’efforçant de ne pas interrompre une seule
seconde la montée du plaisir chez son amie qui, elle, ne s’était
aperçue de rien, il se retourna légèrement.
Derrière lui, dans la pénombre, à la place de l’hortensia,
tournait lentement sur elle-même une masse phosphorescente
d’un bleu pâle agitée de tremblements. Au centre de cette
nébuleuse, la corymbe multiflore ressemblait à une boule
d’yeux clairs qui le regardaient frémissant d’une fascinante
fureur. Dans chacune de ses cent prunelles dont l´éclat
augmentait au fur et à mesure que s’accentuait leur giration,
Marc voyait grandir comme pour s’élancer vers lui l’horreur
d’un vertige insensé.
Mais les petites mains de Yamira parcourant ses épaules,
le souffle de Yamira sur sa nuque et les petits baisers de
Yamira voltigeant sur son visage le firent revenir à sa position
première. Comme pour oublier la vision dans son dos, il
agrippa alors avec une vigueur inaccoutumée sa jeune
maîtresse dont les gémissements, sous lui, redoublèrent
tandis que grandissait en eux l’épanouissement du plaisir.
Et ce fut elle qui, soulevée par un dernier spasme, en
ouvrant tout à coup ses immenses yeux noirs, put voir à son
tour dans la pénombre s’achever la métamorphose de la fleur
magique. À la place de l’hortensia tournoyait un peloton
d’étincelles d’où jaillissaient mille éclairs d’acier bleu.
On ne retrouva que le lendemain les corps des amants
soudés l’un à l’autre et déchirés, lacérés de griffes rouges,
comme s’ils avaient été transpercés par mille aiguilles. Sur le
guéridon devant le lit, dans un pot dérisoire, au dessus de
feuilles qui pendaient, sèches et ridées, une fleur d’hortensia
rabougrie et à demi fanée perdait un à un ses derniers pétales,
comme un bouquet de larmes.

A Hortênsia

A campainha tocou suavemente. Pelo minúsculo olho mágico.
Marcos teve a impressão de ver, no fim do corredor escuro,
uma silhueta clara deslizar escada abaixo. Ele abriu a porta,
admirado. Sobre o capacho, num vaso ridículo, na
extremidade de um caule reto e rígido que parecia realmente
muito fino para sustentá-la, erguia-se uma enorme flor de
hydrangea macrophylla.
Marcos detestava esse gênero de planta, considerada
ornamental, chamada mais popularmente de hortênsia.
Exiladas do seu destino primeiro, que é o de alegrar, com
tenras cores, os velhos muros; separadas de suas irmãs para
serem assim transplantadas num vaso de cerâmica, essas
flores se tornam fictícias e sem atrativo.
Ele não demorou muito tempo para saber quem tinha
acabado de colocar ali, antes de fugir, aquela planta ridícula.
Com toda certeza era Hortência, aquela louca da Hortência,
assinalando dessa forma sua visita. Havia lustros que ela se
obstinava em lhe manifestar sinais de um apego que o deixava
comovido, é claro, mas sem que isso o tocasse no fundo do
seu coração ( ou de algo que denominamos assim). Quem se
diz livre para amar ou não amar, nada sabe sobre o amor.
Marcos não estava livre para fazer tal escolha.
Ele amava alucinadamente, já havia mais de um mês, a
jovem, a graciosa, a doce Yamira. Esse amor correspondido
fazia Hortência mergulhar no mais profundo desespero, sem
que ela pudesse dar fim àqueles sinais bobos de uma paixão
absurda e funesta, por assim dizer, já que ninguém podia
corresponder a essa paixão. Marcos tinha, entretanto, tentado
de todas as formas fazê-la desistir dela. Mas tente então
convencer aquela que ama de que ela não é amada!
O homem fechou a porta apertando entre seus braços a
planta sem odor e de ridícula inflorescência. Não teria sido
melhor que ele jogasse a flor pela janela? Assim a pobre moça
que vigiava, escondida numa reentrância na calçada da frente,
ficaria persuadida para sempre de sua indiferença. Uma vez
mais, uma espécie de piedade o contivera. A menos que a flor,
embora ele não quisesse admitir isso, se iluminando de
repente, naquele momento, tivesse lhe parecido se revestir de
uma cor singular e em nada desprovida de atrativo, enquanto
ela se balançava na ponta do caule, ornado somente por duas
ou três largas folhas de um verde artificial.
De rosa e lilás há pouco, na penumbra do vestíbulo,
sua umbela1 de cem pétalas se coloria agora de um azul
pálido, desse mesmo azul que tinham os grandes olhos de
Hortênsia quando ela os levantava para Marcos, carregados de
todo um passado de promessas contidas.
“Você não acha que ela quis se zombar de você?”
Disse-lhe Yamira morrendo de rir diante da flor tão esquisita
quanto muda. “Como se pode ter tão mau gosto! Yamira foi
ainda mais longe”. Hortência certamente fez isso de
propósito...”.
E, pegando o vaso que Marcos tinha colocado sobre a
mesa da copa, Yamira foi colocá-lo no quarto. “Esta noite, o
presente desta presunçosa será nossa testemunha...” pensava
já com um sorrisinho louco dentro de si mesma.
Quando um pouco mais tarde os dois amantes se
encontraram no fervor ardente de seus desejos coniventes,
não era a hortênsia colocada sobre a mesinha de cabeceira,
diante de sua cama, que Marcos contemplava com olhos
impacientes, mas sim o corpo admirável, na sua terna
juventude desabrochada, que cada noite lhe deixava
maravilhado e entretinha sua vida com uma esperança infinita.
Entretanto, no silêncio ávido das deliciosas carícias que
precediam a realização do ato de amor, Marcos teve a
impressão que uma atmosfera incomum reinava no quarto.
Entre dois abraços, em que seu ardor lhe fazia se
esquecer de tudo, infiltrava-se pouco a pouco a impressão
incômoda de uma presença invisível, uma presença que os
observava. Em seguida essa impressão tornava-se cada vez
mais forte, mais precisa. O homem tinha agora o sentimento
de que numerosos olhares estavam apontados para suas
costas. Esforçando-se para não interromper sequer por um só
segundo o crescimento do prazer de sua namorada que, por
sua vez, não tinha percebido nada, ele se voltou docemente.
Atrás dele, na penumbra, no lugar da hortênsia, girava
lentamente sobre si mesma uma massa fosforescente de um
azul fosco, agitada por tremores. No centro dessa nebulosa, o
corimbo2 multiflorado assemelhava-se a uma bola de olhos
claros que o olhavam tremendo num fascinante furor. Em cada
uma de suas cem pupilas cujo brilho aumentava à medida que
se acentuava sua rotação, Marcos via crescer, como se
quisesse atirar-se contra ele, o horror de uma vertigem
insana.
Mas as pequenas mãos de Yamira percorrendo os
ombros dele, o sopro dela sobre sua nuca e seus beijinhos
rodeando seu rosto o fizeram voltar à sua posição inicial.
Como se quisesse esquecer a visão às suas costas, ele se
agarrou então, com um vigor incomum, na sua jovem amante,
cujos gemidos debaixo dele duplicaram, ao passo que
aumentava neles o êxtase do prazer.
E foi então Yamira que, soerguida por um último
espasmo, abrindo de repente seus imensos olhos negros, pôde
ver, por sua vez, na penumbra, perfazer-se a metamorfose da
flor mágica. No lugar da hortênsia girava uma bola de faíscas
de onde brotavam mil raios de azul incandescente.
Somente no dia seguinte, foram encontrados os corpos
dos amantes unidos um ao outro e despedaçados, dilacerados
por unhadas vermelhas, como se tivessem sido perfurados por
mil agulhas. Sobre a mesinha de cabeceira, diante da cama,
num vaso ridículo, sobre folhas que pendiam, secas e
enrugadas, uma flor de hortênsia ressecada e quase murcha
perdia, uma a uma, suas últimas pétalas, como um buquê de
lágrimas.




1 Umbela: inflorescência em forma de guarda-chuva.

2 Corimbo: tipo de inflorescência simples na qual todas a hastes florais saem de um mesmo plano.





A Hontênsia” foi retirado da revista
Europe/La Nouvelle Française Contemporaine de 1981.



Marcel Béalu nasceu em 30/10/1908 na França e
começou a escrever sob a influência de Max Jacob, um dos
representantes do Simbolismo e do Surrealismo francês.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Silêncio-Edgar Allan Poe

Escuta – disse o demônio, pousando a mão sobre a minha cabeça. – O país de que te falo é um país lúgubre, na Líbia, às margens do rio Zaire. E ali não há repouso nem silêncio. As águas do rio, amarelas e insalubres, não correm para o mar, mas palpitam sempre sob o olhar ardente do Sol, com um movimento convulsivo. De cada lado do rio, sobre as margens lodosas, estende-se ao longe um deserto sombrio de gigantescos nenúfares, que suspiram na solidão, erguendo para o céu os longos pescoços espectrais e meneando tristemente as cabeças sempiternas. E do meio deles sai um sussurro confuso, semelhante ao murmúrio de uma torrente subterrânea. E os nenúfares, voltados uns para os outros, suspiram na solidão.

E o seu império tem por limite uma floresta alta, cerrada, medonha! Lá, – como as vagas em torno das Híbridas, pequenos arbustos agitam-se sem repouso, contudo não há vento no céu! – e as grandes árvores primitivas oscilam continuamente, com um estrépito enorme. E dos seus cumes elevados filtra, gota a gota, um orvalho eterno. A seus pés contorcem-se num sono agitado, flores desconhecidas – venenosas. E por cima das suas cabeças, com um ruge-ruge retumbante, precipitam-se as nuvens negras a caminho do ocidente, até rolarem as cataratas para trás da muralha abrasada do horizonte. E nas margens do rio Zaire há repouso nem silêncio.

Era noite e a chuva caía enquanto caía, era água mas quando chegava ao chão era sangue! E eu estava na planície lodosa, por entre os nenúfares, vendo a chuva que caía sobre mim. E os nenúfares voltados uns para os outros suspira na solenidade da sua desolação.

De repente apareceu a lua através do nevoeiro fúnebre vinha toda carmesim! e o meu olhar caiu sobre um rochedo enorme, sombrio, que se erguia a borda do Zaire, refletindo a claridade da lua; era um rochedo sombrio sinistro de uma altura descomunal!

Sobre o seu cume estavam gravadas algumas letras. Caminhei através dos pântanos de nenúfares, até a margem para ler as letras gravadas na pedra; mas não pude decifrá-las. Ia voltar quando a lua brilhou mais viva e mais vermelha; olhando outra vez para o rochedo distingui só caracteres. E esses caracteres diziam: desolação.

Levantei os olhos; na crista do rochedo estava um homem de figura majestosa. Pendia-lhe dos ombros a antiga toga romana, cobrindo-se até aos pés. Os contornos da sua pessoa não se distinguiam, mas as feições eram as da divindade porque brilhavam através da escuridão da noite a do nevoeiro. Tinha a fronte alta e pensativa, os olhos profundos e melancólicos. Nas rugas do semblante, liam-se as legendas da desgraça e da fadiga o aborrecimento da humanidade e o amor da solidão. Escondi-me no meio dos nenúfares para ver o que aquele homem fazia ali.

E o homem assentou-se no rochedo, deixou pender a cabeça sobre a mão e espraiou a vista pela soledade, contemplou os arbustos buliçosos e as grandes árvores primitivas; depois, ergueu os olhos para a céu a para a lua carmesim. Eu observava as ações do homem escondido no meio dos nenúfares e o homem tremia na solidão. Todavia a noite avançava e ele continuava assentado sobre o rochedo.

Então o homem desviou os olhos do céu para o rio lúgubre para as águas amarelas do Zaire, e para as legiões sinistras dos nenúfares; escutou-lhes os suspiros melancólicos e as oscilações murmurantes E eu o espreitava sempre, do meu esconderijo e o homem tremia na solidão. Todavia a noite avançava e ele continuava assentado sobre o rochedo.

Embrenhei-me na profundezas longínquas do pântano, caminhei sobre e as flores dos nenúfares e chamei os hipopótamos que habitavam a espessura do bosque. E os hipopótamos ouviram o meu chamado e vieram os Behemothes até o pé do rochedo e soltaram um rugido medonho. E eu, escondido por entre os nenúfares, espreitava os movimentos do homem e o homem tremia na solidão. Todavia a noite avançava e ele continuava assentado sobre o rochedo.

Então invoquei os elementos e uma tempestade horrorosa rosa sobreveio. E o céu tornou-se lívido pela violência da tempestade e a chuva caía em torrente sobre a cabeça do homem e as ondas do rio transbordavam e o rio espumava enfurecido e os nenúfares suspiravam com mais força, e a floresta debatia-se com o vento, e o trovão ribombava e os raios flamejavam, e o rochedo estremecia.

Irritei-me e amaldiçoei a tempestade, o rio e os nenúfares, o vento e as floresta, o céu e o trovão. E na minha maldição os elementos emudeceram e a lua parou na sua carreira, e o trovão expirou e o raio deixou de faiscar, e as nuvens ficaram imóveis e as águas tornaram n repousar no seu imenso leito, e as árvores cessaram de se agitar, e os nenúfares não suspiraram mais e na floresta não se tornou a ouvir o mínimo murmúrio, nem a sombra de um som no vasto deserto sem limites. Olhei para os caracteres escritos no rochedo e os caracteres diziam agora: Silêncio.

Volvi outra vez os olhos para o homem, e o seu rosto estava pálido de terror. De repente, levantou a cabeça, ergueu-se sobre o rochedo e pôs o ouvido à escuta. Mas não se ouviu nem uma voz no deserto ilimitado. E os caracteres gravados no rochedo diziam sempre: Silêncio. E o homem estremeceu e fugiu e para tão longe fugiu que jamais o tornei a ver.

Ora, os livros dos magos, os melancólicos livros dos magos encerram belos contos, esplêndidas histórias do céu, da terra e do mar poderosos; dos gênios que têm reinado sobre a terra, sobre o mar e sobre o céu sublime. Há muita ciência na palavra das Sibilas. E das florestas sombrias de Dodona saíam outrora oráculos profundos.

Mas jamais se ouviu uma história tão espantosa como esta! Foi o demônio que ma contou, assentado ao um lado, na solidão do túmulo. Quando acabou de falar, desatou a rir e como não pudesse rir com ele, amaldiçoou-me. Então o lince, que vive eternamente no túmulo, saiu do seu esconderijo e veio deitar-se aos pés do demônio, olhando-o fixamente nas pupilas.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A Formiga e o Grão de Trigo-Leonardo da Vinci

Um grão de trigo, deixado sozinho no campo após a colheita, esperava pela chuva a fim de esconder-se novamente sob a terra.

Uma formiga viu o grão, colocou-o nas costas e partiu penosamente em direção ao formigueiro. À medida que andava, o grão de trigo parecia pesar cada vez mais sobre suas costas cansadas. – Por que você não me deixa aqui? perguntou-lhe o grão de trigo. A formiga respondeu: – Se eu deixar você para trás, podemos não ter provisões suficientes para o inverno. Em nosso formigueiro há muitas formigas e cada uma de nós deve levar para o celeiro todo o alimento que encontrar. – Mas eu não fui feito só para alimentar, objetou o grão de trigo. – Sou uma semente, cheia de vida, e meu destino é dar origem a uma planta. Ouça, cara formiga, vamos fazer um pacto.

A formiga, contente por poder descansar um pouco, colocou o grão de trigo no chão e perguntou: – Que pacto? – Se você me deixar aqui no campo, respondeu o grão de trigo, em vez de me levar para o formigueiro, eu darei a você, daqui a um ano, cem grãos de trigo exatamente iguais a mim.

A formiga olhou para o grão de trigo com ar incrédulo.

- Sim cara formiga, creia no que estou lhe dizendo. Se você desistir de mim agora eu lhe darei cem de mim – cem grãos de trigo para o seu celeiro. A formiga pensou: – Cem grãos de trigo em troca de um só… Mas isso é um milagre! E como você vai fazer isso? perguntou ela. – Isso é um mistério, respondeu o grão de trigo, – É o mistério da vida. Cave um buraquinho, enterre-me dentro dele e volte dentro de um ano.

No ano seguinte a formiga voltou. O grão de trigo transformara-se numa nova planta carregada de sementes, cumprindo portanto, sua promessa.

A Borboleta e a Chama-Leonardo da Vinci

Uma borboleta multicor estava voando na escuridão da noite quando viu, ao longe, uma luz. Imediatamente voou naquela direção e ao se aproximar da chama pôs-se a rodeá-la, olhando-a maravilhada.

Como era bonita!

Não satisfeita em admirá-la, a borboleta resolveu fazer o mesmo que fazia com as flores perfumadas. Afastou-se e em seguida voou em direção à chama e passou rente a ela.

Viu-se subitamente caída, estonteada pela luz e muito surpresa por verificar que as pontas de suas asas estavam chamuscadas.

“Que aconteceu comigo?” – Pensou ela.

Mas não conseguiu entender. Era impossível crer que uma coisa tão bonita quanto a chama pudesse causar-lhe mal. E assim, depois de juntar um pouco de forças, sacudiu as asas e levantou vôo novamente.

Rodou em círculos e mais uma vez dirigiu-se para a chama, pretendendo pousar sobre ela. E imediatamente caiu, queimada, no óleo que alimentava a brilhante e pequenina chama.

- Maldita luz! – murmurou a borboleta agonizante – Pensei que ia encontrar em você a felicidade e em vez disso encontrei a morte. Arrependo-me desse tolo desejo, pois compreendi, tarde demais, para minha infelicidade, o quanto você é perigosa.

- Pobre borboleta! – respondeu a chama – Eu não sou o sol, como você tolamente pensou. Sou apenas uma luz. E aqueles que não conseguem aproximar-se de mim com cautela, são queimados.

Esta fábula é dedicada àqueles que, como a borboleta, são atraídos pelos prazeres mundanos, ignorando a verdade. Então, quando percebem o que perderam, já é tarde demais

Segunda ou Terça-feira

Preguiçosa e indiferente, vibrando facilmente o espaço com suas asas, conhecendo seu rumo, a garça sobrevoa a igreja por baixo do céu. Branca e distante, absorta em si mesma, percorre e volta a percorrer o céu, avança e continua. Um lago? Apaguem suas margens! Uma montanha? Ah, perfeito – o sol doura-lhe as margens. Lá ele se põe. Samambaias, ou penas brancas para sempre e sempre.

Desejando a verdade, esperando-a, laboriosamente vertendo algumas palavras, para sempre desejando – (um grito ecoa para a esquerda, outro para a direita. Carros arrancam divergentes. Ônibus conglomeram-se em conflito) para sempre desejando – (com doze batidas eminentes, o relógio assegura ser meio-dia; a luz irradia tons dourados; crianças fervilham) – para sempre desejando a verdade. O domo é vermelho; moedas pendem das árvores; a fumaça arrasta-se das chaminés; ladram, berram, gritam “Vende-se ferro!” – e a verdade?

Radiando para um ponto, pés de homens e pés de mulheres, negros e incrustados a ouro – (Este tempo nublado – Açúcar? Não, obrigado – a comunidade do futuro) – a chama dardejando e enrubescendo o aposento, exceto as figuras negras com seus olhos brilhantes, enquanto fora um caminhão descarrega, Miss Fulana toma chá à escrivaninha e vidraças conservam casacos de pele.

Trêmula, leve-folha, vagueando nos cantos, soprada além das rodas, salpicada de prata, em casa ou fora de casa, colhida, dissipada, desperdiçada em tons distintos, varrida para cima, para baixo, arrancada, arruinada, amontoada – e a verdade?

Agora recolhida pela lareira, no quadrado branco de mármore. Das profundezas do marfim ascendem palavras que vertem seu negrume. Caído o livro; na chama, no fumo, em momentâneas centelhas – ou agora viajando, o quadrado de mármore pendente, minaretes abaixo e mares indianos, enquanto o espaço investe azul e estrelas cintilam – verdade? Ou agora, consciente da realidade?

Preguiçosa e indiferente, a garça retoma; o céu vela as estrelas; e então as revela.

Virginia Woolf

Embriaguem-se

É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo
horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem
descanso.

Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão
morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao
vento, à vega, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que
gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o
pássaro, o relógio responderão: “É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos
martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso” Com vinho, poesia ou
virtude, a escolher”.

Charles Baudelaire

Os Olhos dos Pobres

Quer saber por que a odeio hoje? Sem dúvida lhe será menos fácil compreendê-lo do que a mim explicá-lo; pois acho que você é o mais belo exemplo da impermeabilidade feminina que se possa encontrar.

Tínhamos passado juntos um longo dia, que a mim me pareceu curto. Tínhamos nos prometido que todos os nossos pensamentos seriam comuns, que nossas almas, daqui por diante, seriam uma só; sonho que nada tem de original, no fim das contas, salvo o fato de que, se os homens o sonharam, nenhum o realizou.

De noite, um pouco cansada, você quis se sentar num café novo na esquina de um bulevar novo, todo sujo ainda de entulho e já mostrando gloriosamente seus esplendores inacabados. O café resplandecia. O próprio gás disseminava ali todo o ardor de uma estréia e iluminava com todas as suas forças as paredes ofuscantes de brancura, as superfícies faiscantes dos espelhos, os ouros das madeiras e cornijas, os pajens de caras rechonchudas puxados por coleiras de cães, as damas rindo para o falcão em suas mãos, as ninfas e deusas portando frutos na cabeça, os patês e a caça, as Hebes e os Ganimedes estendendo a pequena ânfora de bavarezas, o obelisco bicolor dos sorvetes matizados; toda a história e toda a mitologia a serviço da comilança.

Plantado diante de nós, na calçada, um bravo homem dos seus quarenta anos, de rosto cansado, barba grisalha, trazia pela mão um menino e no outro braço um pequeno ser ainda muito frágil para andar. Ele desempenhava o ofício de empregada e levava as crianças para tomarem o ar da tarde. Todos em farrapos. Estes três rostos eram extraordinariamente sérios e os seis olhos contemplavam fixamente o novo café com idêntica admiração, mas diversamente nuançada pela idade.

Os olhos do pai diziam: “Como é bonito! Como é bonito! Parece que todo o ouro do pobre mundo veio parar nessas paredes.” Os olhos do menino: “Como é bonito, como é bonito, mas é uma casa onde só entra gente que não é como nós.” Quanto aos olhos do menor, estavam fascinados demais para exprimir outra coisa que não uma alegria estúpida e profunda.

Dizem os cancionistas que o prazer torna a alma boa e amolece o coração. Não somente essa família de olhos me enternecia, mas ainda me sentia um tanto envergonhado de nossas garrafas e copos, maiores que nossa sede. Voltei os olhos para os seus, querido amor, para ler neles meu pensamento; mergulhava em seus olhos tão belos e tão estranhamente doces, nos seus olhos verdes habitados pelo Capricho e inspirados pela Lua, quando você me disse: “Essa gente é insuportável, com seus olhos abertos como portas de cocheira! Não poderia pedir ao maître para os tirar daqui?”

Como é difícil nos entendermos, querido anjo, e o quanto o pensamento é incomunicável, mesmo entre pessoas que se amam!



BAUDELAIRE

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Tenho um dragão que mora comigo.


Tenho um dragão que mora comigo.
Não, isso não é verdade.
Não tenho nenhum dragão. E, ainda que tivesse, ele não moraria comigo nem com ninguém. Para os dragões, nada mais inconcebível que dividir seu espaço – seja com outro dragão, seja com uma pessoa banal feito eu. Ou invulgar, como imagino que os outros devam ser. Eles são solitários, os dragões. Quase tão solitários quanto eu me encontrei, sozinho neste apartamento, depois de sua partida. Digo quase porque, durante aquele tempo em que ele esteve comigo, alimentei a ilusão de que meu isolamento para sempre tinha acabado. E digo ilusão porque, outro dia, numa dessas manhãs áridas da ausência dele, felizmente cada vez menos freqüentes (a aridez, não a ausência), pensei assim: Os homens precisam da ilusão do amor da mesma forma que precisam da ilusão de Deus. Da ilusão do amor para não afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderem no caos da desordem sem nexo.
Isso me pareceu grandiloqüente e sábio como uma idéia que não fosse minha, tão estúpidos costumam ser meus pensamentos. E tomei nota rapidamente no guardanapo do bar onde estava. Escrevi também mais alguma coisa que ficou manchada pelo café. Até hoje não consigo decifrá-la. Ou tenho medo da minha – felizmente indecifrável – lucidez daquele dia.
Estou me confundindo, estou me dispersando.
O guardanapo, a frase, a mancha, o medo – isso deve vir mais tarde. Todas essas coisas de que falo agora – as particularidades dos dragões, a banalidade das pessoas como eu -, só descobri depois. Aos poucos, na ausência dele, enquanto tentava compreendê-lo. Cada vez menos para que minha compreensão fosse sedutora, e cada vez mais para que essa compreensão ajudasse a mim mesmo a. Não sei dizer. Quando penso desse jeito, enumero proposições como: a ser uma pessoa menos banal, a ser mais forte, mais seguro, mais sereno, mais feliz, a navegar com um mínimo de dor. Essas coisas todas que decidimos fazer ou nos tornar quando algo que supúnhamos grande acaba, e não há nada a ser feito a não ser continuar vivendo.
Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante.
Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se não fosse nada.
Ninguém perguntará coisa alguma, penso. Depois continuo a contar para mim mesmo, como se fosse ao mesmo tempo o velho que conta e a criança que escuta, sentado no colo de mim. Foi essa a imagem que me veio hoje pela manhã quando, ao abrir a janela, decidi que não suportaria passar mais um dia sem contar esta história de dragões. Consegui evitá-la até o meio da tarde. Dói, um pouco. Não mais uma ferida recente, apenas um pequeno espinho de rosa, coisa assim, que você tenta arrancar da palma da mão com a ponta de uma agulha. Mas, se você não consegue extirpá-lo, o pequeno espinho pode deixar de ser uma pequena dor para se transformar numa grande chaga.
Assim, agora, estou aqui. Ponta fina de agulha equilibrada entre os dedos da mão direita, pairando sobre a palma aberta da mão esquerda. Algumas anotações em volta, tomadas há muito tempo, o guardanapo de papel do bar, com aquelas palavras sábias que não parecem minhas e aquelas outras, manchadas, que não consigo ou não quero ou finjo não poder decifrar.
Ainda não comecei.
Queria tanto saber dizer Era uma vez. Ainda não consigo.
Mas preciso começar de alguma forma. E esta, enfim, sem começar propriamente, assim confuso, disperso, monocórdio, me parece um jeito tão bom ou mau quanto qualquer outro de começar uma história. Principalmente se for uma história de dragões.
Gosto de dizer tenho um dragão que mora comigo, embora não seja verdade. Como eu dizia, um dragão jamais pertence a, nem mora com alguém. Seja uma pessoa banal igual a mim, seja unicórnio, salamandra, harpia, elfo, hamadríade, sereia ou ogro. Duvido que um dragão conviva melhor com esses seres mitológicos, mais semelhantes à natureza dele, do que com um ser humano. Não que sejam insociáveis. Pelo contrário, às vezes um dragão sabe ser gentil e submisso como uma gueixa. Apenas, eles não dividem seus hábitos.
Ninguém é capaz de compreender um dragão. Eles jamais revelam o que sentem. Quem poderia compreender, por exemplo, que logo ao despertar (e isso pode acontecer em qualquer horário, às três ou às onze da noite, já que o dia e a noite deles acontecem para dentro, mas é mais previsível entre sete e nove da manhã, pois essa é a hora dos dragões) sempre batem a cauda três vezes, como se tivessem furiosos, soltando fogo pelas ventas e carbonizando qualquer coisa próxima num raio de mais de cinco metros? Hoje, pondero: talvez seja essa a sua maneira desajeitada de dizer, como costumo dizer agora, ao despertar – que seja doce.
Mas no tempo em que vivia comigo, eu tentava – digamos – adaptá-lo às circunstâncias. Dizia por favor, tente compreender, querido, os vizinhos banais do andar de baixo já reclamaram da sua cauda batendo no chão ontem às quatro da madrugada. O bebê acordou, disseram, não deixou ninguém mais dormir. Além disso, quando você desperta na sala, as plantas ficam todas queimadas pelo seu fogo. E, quanto você desperta no quarto, aquela pilha de livros vira cinzas na minha cabeceira. Ele não prometia corrigir-se. E eu sei muito bem como tudo isso parece ridículo. Um dragão nunca acha que está errado. Na verdade, jamais está. Tudo que faz, e que pode parecer perigoso, excêntrico ou no mínimo mal-educado para um humano igual a mim, é apenas parte dessa estranha natureza dos dragões. Na manhã, na tarde ou na noite seguintes, quanto ele despertasse outra vez, novamente os vizinhos reclamariam e as prímulas amarelas e as begônias roxas e verdes, e Kafka, Salinger, Pessoa, Clarice e Borges a cada dia ficariam mais esturricados. Até que, naquele apartamento, restássemos eu e ele entre as cinzas. Cinzas são como sedas para um dragão, nunca para um humano, porque a nós lembra destruição e morte, não prazer. Eles trafegam impunes, deliciados, no limiar entre essa zona oculta e a mais mundana. O que não podemos compreender, ou pelo menos aceitar.
Além de tudo: eu não o via. Os dragões são invisíveis, você sabe. Sabe? Eu não sabia. Isso é tão lento, tão delicado de contar – você ainda tem paciência? Certo, muito lógico você querer saber como, afinal, eu tinha tanta certeza da existência dele, se afirmo que não o via. Caso você dissesse isso, ele riria. Se, como os homens e as hienas, os dragões tivessem o dom ambíguo do riso. Você o acharia talvez irônico, mas ele estaria impassível quanto perguntasse assim: mas então você só acredita naquilo que vê? Se você dissesse sim, ele falaria em unicórnios, salamandras, harpias, hamadríades, sereias e ogros. Talvez em fadas também, orixás quem sabe? Ou átomos, buracos negros, anãs brancas, quasars e protozoários. E diria, com aquele ar levemente pedante: “Quem só acredita no visível tem um mundo muito pequeno. Os dragões não cabem nesses pequenos mundos de paredes invioláveis para o que não é visível”.
Ele gostava tanto dessas palavras que começam com in – invisível, inviolável, incompreensível -, que querem dizer o contrário do que deveriam. Ele próprio era inteiro o oposto do que deveria ser. A tal ponto que, quando o percebia intratável, para usar uma palavra que ele gostaria, suspeitava-o ao contrário: molhado de carinho. Pensava às vezes em tratá-lo dessa forma, pelo avesso, para que fôssemos mais felizes juntos. Nunca me atrevi. E, agora que se foi, é tarde demais para tentar requintadas harmonias.
Ele cheirava a hortelã e alecrim. Eu acreditava na sua existência por esse cheiro verde de ervas esmagadas dentro das duas palmas das mãos. Havia outros sinais, outros augúrios. Mas quero me deter um pouco nestes, nos cheiros, antes de continuar. Não acredite se alguém, mesmo alguém que não tenha um mundo pequeno, disser que os dragões cheiram a cavalos depois de uma corrida, ou a cachorros das ruas depois da chuva. A quartos fechados, mofo, frutas podres, peixe morto e maresia – nunca foi esse o cheiro dos dragões.
A hortelã e alecrim, eles cheiram. Quando chegava, o apartamento inteiro ficava impregnado desse perfume. Até os vizinhos, aqueles do andar de baixo, perguntavam se eu andava usando incenso ou defumação. Bem, a mulher perguntava. Ela tinha uns olhos azuis inocentes. O marido não dizia nada, sequer me cumprimentava. Acho que pensava que era uma dessas ervas de índio que as pessoas costumam fumar quando moram em apartamentos, ouvindo música muito alto. A mulher dizia que o bebê dormia melhor quando esse cheiro começava a descer pelas escadas, mais forte de tardezinha, e que o bebê sorria, parecendo sonhar. Sem dizer nada, eu sabia que o bebê sonhava com dragões, unicórnios ou salamandras, esse era um jeito do seu mundo ir-se tornando aos poucos mais largo. Mas os bebês costumam esquecer dessas coisas quanto deixam de ser bebês, embora possuam a estranha facilidade de ver dragões – coisa que só os mundos muito largos conseguem.
Eu aprendi o jeito de perceber quando o dragão estava a meu lado. Certa vez, descemos juntos pelo elevador com aquela mulher de olhos-azuis-inocentes e seu bebê, que também tinha olhos-azuis-inocentes. O bebê olhou o tempo todo para onde estava o dragão. Os dragões param sempre do lado esquerdo das pessoas, para conversar direto com o coração. O ar a meu lado ficou leve, de uma coloração vagamente púrpura. Sinal que ele estava feliz. Ele, o dragão, e também o bebê, e eu, e a mulher, e a japonesa que subiu no sexto andar, e um rapaz de barba no terceiro. Sorríamos suaves, meio tolos, descendo juntos pelo elevador numa tarde que lembro de abril – esse é o mês dos dragões – dentro daquele clima de eternidade fluida que apenas os dragões, mas só às vezes, sabem transmitir.
Por situações como essa, eu o amava. E o amo ainda, quem sabe mesmo agora, quem sabe mesmo sem saber direito o significado exato dessa palavra seca – amor. Se não o tempo todo, pelo menos quanto lembro de momentos assim. Infelizmente, raros. A aspereza e avesso parecem ser mais constantes na natureza dos dragões do que a leveza e o direito. Mas queria falar de antes do cheiro. Havia outros sinais, já disse. Vagos, todos eles.
Nos dias que antecediam a sua chegada, eu acordava no meio da noite, o coração disparado. As palmas das mãos suavam frio. Sem saber porque, nas manhãs seguintes, compulsivamente eu começava a comprar flores, limpar a casa, ir ao supermercado e à feira para encher o apartamento de rosas e palmas e morangos daqueles bem gordos e cachos de uvas reluzentes e berinjelas luzidias (os dragões, descobri depois, adoram contemplar berinjelas) que eu mesmo não conseguia comer. Arrumava em pratos, pelos cantos, com flores e velas e fitas, para que os espaços ficassem mais bonito.
Como uma fome, me dava. Mas uma fome de ver, não de comer. Sentava na sala toda arrumada, tapete escovado, cortinas lavadas, cestas de frutas, vasos de flores – acendia um cigarro e ficava mastigando com os olhos a beleza das coisas limpas, ordenadas, sem conseguir comer nada com a boca, faminto de ver. À medida que a casa ficava mais bonita, eu me tornava cada vez mais feio, mais magro, olheiras fundas, faces encovadas. Porque não conseguia dormir nem comer, à espera dele. Agora, agora vou ser feliz, pensava o tempo todo numa certeza histérica. Até que aquele cheiro de alecrim, de hortelã, começasse a ficar mais forte, para então, um dia, escorregar que nem brisa por baixo da porta e se instalar devagarzinho no corredor de entrada, no sofá da sala, no banheiro, na minha cama. Ele tinha chegado.
Esses ritmos, só descobri aos poucos. Mesmo o cheiro de hortelã e alecrim, descobri que era exatamente esse quando encontrei certas ervas numa barraca de feira. Meu coração disparou, imaginei que ele estivesse por perto. Fui seguindo o cheiro, até me curvar sobre o tabuleiro para perceber: eram dois maços verdes, a hortelã de folhinhas miúdas, o alecrim de hastes compridas com folhas que pareciam espinhos, mas não feriam. Pergunte o nome, o homem disse, eu não esqueci. Por pura vertigem, nos dias seguintes repetia quanto sentia saudade: alecrim hortelã alecrim hortelã alecrim hortelã alecrim.
Antes, antes ainda, o pressentimento de sua visita trazia unicamente ansiedade, taquicardias, aflição, unhas roídas. Não era bom. Eu não conseguia trabalhar, ira ao cinema, ler ou afundar em qualquer outra dessas ocupações banais que as pessoas como eu têm quando vivem. Só conseguia pensar em coisas bonitas para a casa, e em ficar bonito eu mesmo para encontrá-lo. A ansiedade era tanta que eu enfeitava, à medida que os dias passavam. E, quando ele enfim chegava, eu nunca tinha estado tão feio. Os dragões não perdoam a feiúra. Menos ainda a daqueles que honram com sua rara visita.
Depois que ele vinha, o bonito da casa contrastando com o feio do meu corpo, tudo aos poucos começava a desabar. Feito dor, não alegria. Agora agora agora vou ser feliz, eu repetia: agora agora agora. E forçava os olhos pelos cantos de prata esverdeadas, luz fugidia, a ponta em seta de sua cauda pela fresta de alguma porta ou fumaça de suas narinas, sempre mau, e a fumaça, negra. Naqueles dias, enlouquecia cada vez mais, querendo agora já urgente ser feliz. Percebendo minha ânsia, ele tornava-se cada vez mais remoto. Ausentava-se, retirava-se, fingia partir. Rarefazia seu cheiro de ervas até que não passasse de uma suspeita verde no ar. Eu respirava mais fundo, perdia o fôlego no esforço de percebê-lo, dias após dia, enquanto flores e frutas apodreciam nos vasos, nos cestos, nos cantos. Aquelas mosquinhas negras miúdas esvoaçavam em volta delas, agourentas.
Tudo apodrecia mais e mais, sem que eu percebesse, doído do impossível que era tê-lo. Atento somente à minha dor, que apodrecia também, cheirava mal. Então algum dos vizinhos batia à porta para saber se eu tinha morrido e sim, eu queria dizer, estou apodrecendo lentamente, cheirando mal como as pessoas banais ou não cheiram quando morrem, à espera de uma felicidade que não chega nunca. Ele não compreenderia. Eu não compreendia, naqueles dias – você compreende?
Os dragões, já disse, não suportam a feiúra. Ele partia quando aquele cheiro de frutas e flores e, pior que tudo, de emoções apodrecidas tornava-se insuportável. Igual e confundido ao cheiro da minha felicidade que, desta e mais uma vez, ele não trouxera. Dormindo ou acordado, eu recebia sua partida como um súbito soco no peito. Então olhava para cima, para os lados, à procura de Deus ou qualquer coisa assim – hamadríades, arcanjos, nuvens radioativas, demônios que fossem. Nunca os via. Nunca via nada além das paredes de repente tão vazias sem ele.
Só quem já teve um dragão em casa pode saber como essa casa parece deserta depois que ele parte. Dunas, geleiras, estepes. Nunca mais reflexos esverdeados pelos cantos, nem perfume de ervas pelo ar, nunca mais fumaças coloridas ou formas como serpentes espreitando pelas frestas de portas entreabertas. Mais triste: nunca mais nenhuma vontade de ser feliz dentro da gente, mesmo que essa felicidade nos deixe com o coração disparado, mãos úmidas, olhos brilhantes e aquela fome incapaz de engolir qualquer coisa. A não ser o belo, que é de ver, não de mastigar, e por isso mesmo também uma forma de desconforto. No turvo seco de uma casa esvaziada da presença de um dragão, mesmo voltando a comer e a dormir normalmente, como fazem as pessoas banais, você não sabe mais se não seria preferível aquele pântano de antes, cheio de possibilidades – que não aconteciam, mas que importa? – a esta secura de agora. Quando tudo, sem ele, é nada.
Hoje, acho que sei. Um dragão vem e parte para que seu mundo cresça? Pergunto – porque não estou certo – coisas talvez um tanto primárias, como: um dragão vem e parte para que você aprenda a dor de não tê-lo, depois de ter alimentado a ilusão de possuí-lo? E para, quem sabe, que os humanos aprendam a forma de retê-lo, se ele um dia voltar?
Não, não é assim. Isso não é verdade.
Os dragões não permanecem. Os dragões são apenas a anunciação de si próprios. Eles se ensaiam eternamente, jamais estréiam. As cortinas não chegam a se abrir para que entrem em cena. Eles se esboçam e se esfumam no ar, não se definem. O aplauso seria insuportável para eles: a confirmação de que sua inadequação é compreendida e aceita e admirada, e portanto – pelo avesso igual ao direito – incompreendida, rejeitada, desprezada. Os dragões não querem ser aceitos. Eles fogem do paraíso, esse paraíso que nós, as pessoas banais, inventamos – como eu inventava uma beleza de artifícios para esperá-lo e prendê-lo para sempre junto a mim. Os dragões não conhecem o paraíso, onde tudo acontece perfeito e nada dói nem cintila ou ofega, numa eterna monotonia de pacífica falsidade. Seu paraíso é o conflito, nunca a harmonia.
Quando volto a pensar nele, nestas noites em que dei para me debruçar à janela procurando luzes móveis pelo céu, gosto de imaginá-lo voando com suas grandes asas douradas, solto no espaço, em direção a todos os lugares que é lugar nenhum. Essa é sua natureza mais sutil, avessa às prisões paradisíacas que idiotamente eu preparava com armadilhas de flores e frutas e fitas, quando ele vinha. Paraísos artificiais que apodreciam aos poucos, paraíso de eu mesmo – tão banal e sedento – a tolerar todas as suas extravagâncias, o que devia lhe soar ridículo, patético e mesquinho. Agora apenas deslizo, sem excessivas aflições de ser feliz.
As manhãs são boas para acordar dentro delas, beber café, espiar o tempo. Os objetos são bons de olhar para eles, sem muitos sustos, porque são o que são e também nos olham, com olhos que nada pensam. Desde que o mandei embora, para que eu pudesse enfim aprender a grande desilusão do paraíso, é assim que sinto: quase sem sentir.
Resta esta história que conto, você ainda está me ouvindo? Anotações soltas sobre a mesa, cinzeiros cheios, copos vazios e este guardanapo de papel onde anotei frases aparentemente sábias sobre o amor e Deus, com uma frase que tenho medo de decifrar e talvez, afinal, diga apenas qualquer coisa simples feito: nada disso existe.
Nada, nada disso existe.
Então quase vomito e choro e sangro quando penso assim. Mas respiro fundo, esfrego as palmas das mãos, gero energia em mim. Para manter-me vivo, saio à procura de ilusões como o cheiro das ervas ou reflexos esverdeados de escamas pelo apartamento e, ao encontrá-los, mesmo apenas na mente, tornar-me então outra vez capaz de afirmar, como num vício inofensivo: tenho um dragão que mora comigo. E, desse jeito, começar uma nova história que, desta vez sim, seria totalmente verdadeira, mesmo sendo completamente mentira. Fico cansado do amor que sinto, e num enorme esforço que aos poucos se transforma numa espécie de modesta alegria, tarde da noite, sozinho neste apartamento no meio de uma cidade escassa de dragões, repito e repito este meu confuso aprendizado para a criança-eu-mesmo sentada aflita e com frio nos joelhos do sereno velho-eu-mesmo:
- Dorme, só existe o sonho. Dorme, meu filho. Que seja doce.
Não, isso também não é verdade.
(Caio Fernando Abreu)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

DODECAEDRO 11º FRAGMENTO DA 13ª VOZ


Também conheço esse jogo। Agora pões a trunfa marroquina de espelhinhos, miçangas, bordados e cordões. Como uma coroa, sobre a cabeça. Acendes incenso, velas, jogas sal marinho nos quatro cantos, a água sobre toalha branca. Te benzes. E reviras os olhinhos, dispondo Fatídicos Arcanos. Traças sinais cabalísticos no ar e dizes coisas, Sacerdotisa de Nada, lançando profecias como quem lança milho às galinhas. A cabeça sempre um pouco baixa, para disfarçar a arrogância de ter sido A Grande Escolhida. Porca, porca, porca. Cumpres com humildade tua Amarga Sina De Ser Assim Abnegadamente Superior. E te melas toda no visgo das estrelas, te encharcas de visões equivocadas. Depois procuras o ponto de fogo entre as coxas, e só então suspiras, aliviada de tanta santidade. Ainda continuas? Pára, te ordeno. Não tens esse direito. Há mais. Onde? Tenho todos os direitos, só não suporto nenhum. Como discipliná-los, agora? Pensei que se conseguisse estaria livre. Pensei que se denunciasse a perdição deles me livraria da minha. Agora também me perdi. Destinos, anúncios luminosos. Faz um esforço, vamos. Apunhala, grita, arremata. Xangô te guia, machado em riste.
XI. VIRGINIADesde o início soube. Na verdade desde ontem, desde antes. Mas me limitei a observá-los, enquanto me aplicava nos cálculos para que não se emaranhassem os destinos nem se equivocassem os ângulos entre os planetas, as cúspides, os luminares. Embora nem sempre me ouvissem, falava assim mesmo. Dizia de Netuno embaçado, tornando ainda mais sangrenta a fúria de Marte, do movimento maléfico de Mercúrio, unido à Lua para obscurecer a luz do Sol, do brilho mais forte de Vênus em sua Casa, trazendo à tona as funduras de Saturno. Sobre todos, pairava Urano, a estimular o presságio da estranha abundância provocada por Júpiter, enquanto mais longe, por trás da consciência, como o jorro de lava dos vulcões, Plutão faria explodir o pus de todas as feridas. Dependeria de nosso exercício de alquimia saber transmutar o gosto nojento desse visgo amarelo em outro sabor mais limpo.Para isso estávamos ali, em teste. Sem passado nem futuro, suspensos. Mas a mim não importava o que se fora. Queria o passo à frente. Além ainda de inesperadas sinastrias, bizarras quadraturas das quais vinha tentando inutilmente avisá-los tanto tempo antes. Respeitavam a isso que chamam de minha “loucura’ mas solicitavam-me às vezes, pobremente, quando seus amores se complicavam, quando seus bens se perdiam, ainda que cinco minutos depois já não lembrassem minhas palavras. Que talvez não sejam definitivas, mas buscam sempre por essa região que entre a larva e a borboleta acontece num segundo no interior da crisálida para anunciar um próximo e possível vôo numa vida que não durará mais que um dia, de tão perfeita se armou. Porque não quero voltar outra vez a este plano de movediços terrenos enganosos. Sei bem de mim que, quando o sol encontrar novamente meu sol, talvez no próximo verão, também estarei partindo. Completa.Não lhes disse isso. Não era preciso. Não porque mais uma vez não entenderiam, mas sim porque depois de desfeita a desordem instaurada por Júlio, até que se inaugurasse nova ordem, menos precária que esta, alguém precisaria ir em frente. Me limitei a chamar Arthur, apanhar seu martelo, entregar minha luneta a Raul e arrancar as tábuas pregadas sobre as janelas da cozinha. Com a ajuda de Isis e Linda, escancará-las para que entrasse o ar noturno e a luz da lua cheia. Chamei também Marcelo à porta de seu quarto, que me abraçou com ardor, umas ardências das quais talvez precisarei até minha partida no próximo verão. Por isso tomei-o pela mão, trouxe-o comigo, me agradam suas sobrancelhas espessas, unidas graves sobre o nariz, seu olho de quem não teme matar e sempre planta. Estendeu-me um tomate maduro mordido, que mordi também, passando-o depois aos outros. Ë o primeiro, ele disse. Um por um, nós o provamos, parados à frente do quarto de Anaís. Sem querer, antes de bater, pensei obscuramente qualquer coisa assim:porque me antecede, ela sabe mais. Repito, ainda não é claro: porque ela me antecede, talvez saiba mais; se me amparar no passado verei mais claro o futuro. Bati três vezes.Entre a confusão de panos roxos, cristais, fumaça de incenso, quadros, sininhos, tecidos orientais pendurados do teto sobre a cama, livros, frascos, papéis escritos, Anaís sorria muito calma. Estendeu para mim as duas mãos em concha, cheias de comprimidos brancos, depois jogou-os ao chão. Júlio quis começar a dizer alguma coisa longa demais, e um tanto confusa, mas com um sinal ela fez entender que não era preciso. Depois apanhou as folhas de papel sobre a cama, sentou-se na janela aberta — esteve aberta o tempo todo, disse, ordenando as folhas — e perguntou se queríamos entrar para ouvir. Marcelo tentou abraçá-la. Ela afastou-o com um gesto delicado, querendo dizer que não, que agora não, que desse jeito não, que assim não, que não mais, quem sabe nunca. Servindo-se de um desses licores açucarados que costuma fazer, tão roxo que acho que era o de violetas, Anaís começou a ler.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

1º FRAGMENTO DA 13ª VOZ

Possível coreografia verbal para In Concert, de Keith Jarrett)

À memória de
Ana Cristina Cesar (Ana C.)
Para :
José Maria Carvalho

quando soltaram os cachorros loucos eu estava fazendo chá
de ervas do campo
e de repente o espanto
tremendo a chaleira
e bombeando medo
larguei as ervas e danado
precipitei-me à janela
de onde vi
enormes matilhas
com olhos cheios de negra espuma
a espuma invadia a rua
e abraçava postes, que caíam
cheios de óleo e náusea
engolia as pessoas
que alucinadas
enchiam o ar de berros
depois os cachorros foram embora
eu voltei ao meu chá
e lá fora a solidão
e uma flor quase despercebida
Henrique do Valle: Uma flor num buraco de calçada


PRIMEIRO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ

O tom, o problema é o tom. A tua mão está débil. Parece que não ousas. Espera um pouco, certa paciência. Quem sabe se eu explicasse como me veio, ajudaria? Mas ajudaria a quem, a quê? Não me pergunta ainda, só depois talvez quase saberei. É que o tom, eu te falava do tom. Sei, mas lá o tom, maldição, era exatamente esse. Mas assim... diluído? Assim contido? Espera: havia o rio, depois o mato. Foi entre o rio e o mato que me veio. Da casa chegavam uns acordes obsessivos de piano. E da memória, juntos, me brotaram uns versos falando nos cães. Não éramos doze, aquelas pessoas não me interessavam. Eu não as amaria, elas nunca me amariam, a não ser estonteadamente, por levezas, distrações. Eram outras. Era carnaval, pleno carnaval. Eu precisava voltar, elas queriam nascer, eu não as conhecia. Sabia apenas que estavam cercadas, que eram doze, que havia um rio, um mato, um piano tocando sem parar dentro da casa branca. No início da noite, nofim do verão.

1.RAUL
Alecrim, artemísia, absinto, boldo, manjericão, Verbena, camomila: eu estava na cozinha fazendo chá de ervas do campo quando soltaram os cachorros loucos. Gostava de misturá-las assim, as ervas, um pouco ao acaso, deixando a água esquentar enquanto as macerava devagar no pote de cerâmica. Tinha começado a anoitecer, mas ninguém lembrara ainda de acender as luzes. Talvez porque ficasse tudo mais calmo, mais bonito, quase perfeito: aquela meia penumbra avermelhada, o som do piano vindo da sala, as vozes caladas, as ervas verdes sobre a madeira da mesa. Agora, horas depois, minhas mãos continuam a guardar o cheiro fresco do capim-cidró que Marília colheu pela manhã, tomando cuidado para que a lâmina afiada das folhas não lhe cortasse os dedos. Se ficar bem atento, conseguirei localizar sob as unhas remotos vestígios do perfume da hortelã, do funcho, misturados ao cheiro ardido da arruda no galhinho colocado atrás da orelha para afugentar maus espíritos. Rindo de exorcismos, galhos, pedras, velas, incensos: os maus espíritos estão soltos, imunes aos axés, e não consigo ficar atento a mais nada além dos passos e dos uivos dos cães rondando a casa. A todo instante lembro de quando ainda estava tudo em aparente paz: as ervas sobre a mesa, a chaleira de ferro no fogo, o bule esmaltado de branco com as doze xícaras de cores diferentes dispostas em volta. Eu acompanhava com a cabeça a música vinda da sala, ao mesmo tempo em que esmagava as ervas para jogá-las dentro do bule. Esperando a água chiar, determinava com cuidado, e para sempre, a cor da xícara de cada um de nós, colocando-as em círculo ao redor do bule. Escolhi a vermelha para Arthur, que dá ordens, prega pregos, corta fios e sem parar faz coisas pela casa. Separei a azul-celeste para Isis, azul no tom exato de sua voz aguda quando canta, cristal retinindo na luz. Determinei que a verde mais clara pertenceria a Júlio, que se enreda em palavras, movimentos, e me parece — pelo menos agora, em plena noite — que o movimento tem exatamente essa cor, sobretudo às três horas das tardes de sol quente. Hesitei um pouco até encontrar minha própria cor, mas acabei escolhendo o branco, não só porque assim me visto sempre, mas também porque é meu oficio fazer coisas brancas, preparar os chás, assar os pães, lavar a louça. Para Ricardo, cujos cabelos claros às vezes brilham, ouro, com uma inspiração separei certeiro a amarela. Não tive dúvidas ao destinar a Martha, que tira a poeira da casa e lava o chão, a xícara verde-escuro. Para Linda, por sua dança de meneios harmoniosos, mansas curvaturas, separei a cor-de-rosa. Quando pensei nas sobrancelhas cerradas de Marcelo, imediatamente tomei a cor de vinho tinto, paixões, intensidades. Pedro, o que nos faz rir quando não está lendo ou caminhando sozinho pelo mato com seus Oxóssis, ficará com a laranja. Por gostar de terra, por nunca usar cores, Manilha ganhou a marrom. Restavam duas: a azul-marinho, cor do céu noturno, seria de Virgínia, para ajudá-la a decifrar as estrelas quando se embaçarem nas quadraturas. A roxa pertenceria a Anaís. São dessa cor os sonhos e premonições que costuma ter, os licores que prepara, o esmalte de suas unhas, os panos que a cercam. Assim: Como um pequeno zodíaco, doze xícaras em volta do bule. Pensei em repetir palavras mágicas para concentrar energia em cada uma delas, mas nenhuma me ocorreu. Abracadabras, shazams. Talvez não fossem necessárias, porque eu estava carregado de amor por nós todos.
Falo banalidades, sei, mas amor é magia, condão, pedra de toque — embora o pressentimento da teia escura se armando sobre nossas cabeças. Seria quem sabe o vermelho vivo do poente, tudo parado, nenhum vento na copa das árvores, a noite chegando do outro lado do mundo, o verão no fim. Sem que eu quisesse, meu pensamento voltava-se insistente para a xícara cor de vinho tinto. As notas do piano enleavam meu corpo em fios sonolentos. Eu deveria rir ou bocejar, suspenso à beira do sono, quando Ísis gritou ao longe, a chaleira ferveu e Marcelo entrou. Ele colocou a mão no meu ombro, apertou forte e disse que tinham soltado os cachorros loucos.